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O Manual dos Inquisidores

Segundo relato (A Malícia dos Objectos Inanimados)

Dei por as coisas acontecerem quando o Joãozinho começou a chorar. Eu estava no jardim preocupada com a febre das roseiras, a construir uma tenda que as protegesse do vento e de início não julguei que fosse a criança a chamar-me mas uma pomba viúva num cedro ou um ganso perdido no novelo dos buxos até que me puxaram a saia, eu sem me voltar.

―Quieto Adamastor

o vento tombou de súbito, as pás do moinho calaram-se, os gerânios e as estrelícias deixaram de murmurar nos canteiros, escutava-se a bica da água na piscina e um risinho de corvo sobre as faias, o lobo da alsácia, a gemer, arrepanhava-me a saia, eu enxotando o animal com o pé

―Quieto Adamastor

e uma vozinha sufocada de lágrimas lça em baixo, pendurando-se-me na roupa

―Não é o Adamastor Titina sou eu

de modo que lhe peguei ao colo, procurei um joelho esfolado que era o que sucedia a cada passo, tropeçar nos cubos dos guarda-sóis, bater numa estátua, magoar-se na pedra dos canteiros, separei-lhe a franja om medo de ver sangue

―O menino caiu?

e nem feridas, nem sangue, nem arranhões, nem uma nódoa de lama sequer, só um dedo apontado, o nariz no meu pescoço, um estremeção de lágrimas

―A mãe o pai a mãe o pai

e portanto dei por as coisas acontecerem quando o Joãozinho começou a chorar. Hoje pergunto-me se não devia ter feito alguma coisa na çepoca em que principiaram as questões entre o senhor doutor e a senhora dado que quer um quer outro me escutavam, a senhora por exemplo era rara a manhã em que não me pedia opinião sobre isto ou sobre aquilo, as criadas, as despesas, a casa

―O que achas Titina?

e o próprio senhor doutor, tão diferente do homem em que se tornou depois, me convocava ao escritório e me mandava sentar como se fosse igual a ele para falar do estábulo ou da horta ou das alterações no pomar

―Dá aqui uma ajuda Titina


António Lobo Antunes, O Manual dos Inquisidores. Lisboa: D. Quixote, 1996, segundo relato, p. 115,116
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