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Viagem ao Alentejo

Rafael Vallbona

Quilómetros de saudade

Sempre que perguntei o que é a famosa saudade dos portugueses nunca obtive duas respostas idênticas. Em geral, poderíamos dizer que é uma espécie de desentorpecimento anímico provocado pelo facto de estar longe do país pequeno e amado e de tudo e todos que deixaram lá. Essa seria uma resposta capaz de obter um certo consenso entre os interrogados, mas de certeza que todos acrescentariam algum matiz ou algumas ideias próprias. É que o mal de espírito é sempre difícil de explicar. Uma dor no peito, um desassossego, uma angústia que parece ofegar, um cerrar de lábios para evitar os soluços, um cravar os olhos no nada e fazer voar a lembrança… tudo isto, e provavelmente muito mais, forma parte desta saudade.

Desde Beja, a nova estrada nacional, bem asfaltada e sinalizada, leva-me depois de setenta e dois quilómetros a Évora passando e deixando para trás Vidigueira e Portel. Agora já não procuro o caminho estreito que dá voltas e mais voltas por aldeias pequenas, rios e barragens, agora vou directamente para o meu destino final que será a casa do meu amigo em Badajoz. Agora já não vou parar até ao Alandroal ou Elvas, já não posso olhar mais para estas paisagens da planície com o olhar lento que faz falta. Já não contarei azinheiras e oliveiras, e Évora será, agora sim, uma miragem cravada no meio de ondulações de terreno verde e ocre que vão saltando a grande velocidade com o carro. E farei tudo isto porque, se me detenho apenas um momento para olhar, se faço o menor atalho no meu caminho, se penso por um segundo no que vivi, conheci e aprendi nestes últimos dias, de certeza que me invadirá um ar melancólico que não será nada bom para o que ainda resta da viagem e para os dias que virão, nos quais vou sofrer de saudade.

VALLBONA, Rafael. Viagem ao Alentejo. Porto: Fronteira do Caos, 2012
Translated by Rita Custódio
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