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Quanta, Quanta Guerra

Mercè Rodoreda

À meia-noite

Nasci à meia-noite, no Outono, com um sinal na testa do tamanho de uma lentilha. Quando me portava mal, a minha mãe dizia, meio virada de costas, pareces um Caim. O Josep tinha uma cicatriz na coxa esquerda, na parte de dentro, em forma de peixe, que tinha muita graça. O Rossend, o filho do trapeiro que nos emprestava o burro e a carroça para podermos levar os cravos ao mercado, tinha a ponta do nariz vermelha e tinha muita graça. O Ramon, o filho do talhante, tinha as orelhas pontiagudas e tinha muita graça. Eu não tinha graça nenhuma. Se alguma vez se juntavam contra mim e me atacavam porque não queria participar nos seus jogos, obrigava-os a retroceder gritando que o meu tio era o demónio e que me tinha marcado a testa ao nascer para me poder reconhecer logo, mesmo que estivesse misturado com outros rapazes. Era loiro como um fio de ouro. Aos três anos, como a minha mãe nunca me tinha levado a cortar o cabelo que me caía encaracolado dos dois lados do pescoço, toda a gente me confundia com uma menina. No dia em que a minha mãe me levou a ver o padre Sebastià para entrar na escola, o padre Sebastià, enquanto olhava para mim com pena, disse: aqui não acolhemos meninas. A minha mãe desfez-se em explicações, que lhe custava cortar-me o cabelo, tão bonito, que ainda era demasiado pequeno e que com o cabelo rapado teria frio e enquanto ela se explicava, eu, que já sabia escrever o meu nome, aproximei-me do quadro, peguei no giz e em branco sobre preto escrevi em letras grandes e torcidas: Adrià Guinart. O padre Sebastià deu-se logo conta e, com as mãos juntas, disse, que arcanjo!

Entrei na escola com o cabelo rapado, desesperado por não tê-lo como antes, e mais sábio do que os outros meninos. O padre Sebastià sentava-me ao seu lado enquanto explicava a História Sagrada, porque, se me sentava no banco, dizia que o incomodava a minha forma de olhar, demasiado fixa. Tinha uma pasta grossa cheia de grandes estampas, fechada no armário dos cadernos, dos lápis e dos gizes. Enquanto ele falava, eu, sempre eu, tinha de assinalar com o ponteiro tudo o que ia nomeando: o Mar Morto, o cajado de Moisés, as Tábuas da Lei, a Árvore do Bem e do Mal, Adão e Eva vestidos com parras. Assinala Sansão. Morria de vergonha quando tinha de assinalar o que perdeu a força quando lhe cortaram o cabelo. Assinala o anjo anunciador. Com o lírio florido na mão diante de Maria, loiro e com caracóis como eu antes de entrar na escola, com as penas das asas, uma listra azul, uma listra vermelha, o anjo sustinha-se no ar. Com a lâmina do dilúvio todos os meninos da aula, até os mais distraídos e adormecidos, se animavam. Enquanto percorria com o ponteiro a curva de cores do arco-íris, tinha a sensação de estar a voar por entre o verde e o roxo, o amarelo e o cor-de-rosa… O padre Sebastià não tinha dito que eu era um arcanjo? Os arcanjos voavam. Abel e Caim. Não respirava. Abel pastoreava. Caim lavrava e suava. Sonhava História Sagrada, sonhava anjos, sonhava santos, sonhava-me a mim a viver a História Sagrada, a atravessar desertos e a fazer manar água das fontes. No dia em que calhava a estampa da crucificação, quando chegava ao campo de cravos, corria de um lado para o outro, esticava-me o mais alto que conseguia, na ponta dos pés, para sentir as estrelas que diziam, pobrezinho, pobrezinho, não tem asas…

RODOREDA, Mercè. Quanta, Quanta Guerra… Lisboa: Cotovia, 2011.
Traduït per Àlex Tarradellas
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