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As Canções

António Botto

Pequenas Esculturas, 5

Enganas-te, digo ainda.

No amor,
—Apenas é mentira no futuro

Aquilo
Que nos parece uma verdade presente.

O amor não mente, nunca!
Exagera simplesmente.

Pequenas esculturas, 7

Já tentei renunciar-te

E com que vontade
Me lancei nesse desejo...

São loucuras meus ciúmes?

Sim, talvez tenhas razão:
— Na vida
Tudo é loucura
Se mostramos coração


Pequenas esculturas, 19

Afirmam que a vida é breve,
Engano — a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.


Dandismo, 9

Dizem que não nos queremos.
Disseram —
Até com certa ironia
Que quando nos encontrarmos
Há neve no outro dia.
Como essa gente se engana,
Como essa gente mesquinha
Me diverte e me da pena!
— Não nos vêem conversar,
Ninguém nos viu de mãos dadas
Nem sabe que nos beijamos;
— Como essa gente se engana
Acerca do que pensamos!
Dizem que não nos queremos.
Por um motivo qualquer:
— Só o nosso coração
poderia responder:
Poderia — mas não quer.


Sonetos, 14

Homem que véns de humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo o sabes e que tudo ignoras;
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras —
E na ambição de coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te das à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,

Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
Eu sou teu camarada e teu irmão.

Traduït per Gabriel Sampol
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