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Portada > L’espai dels traductors > Francès > Gabriel Sampol > Sermó del dia de Cap d'any. Predicat a Lisboa a la Capella Reial l'any 1642

Sermão dos bons anos

António Vieira

Postquam consummati sunt dies octo, ut circumcideretur puer, vocatum est nomen ejus Jesus, quod vocatum est ab angelo, priusquam in utero conciperetur (Lc. II)

III. [...] Não há dúvida que foi muito cedo para a dor, mas não foi muito cedo para o remédio; foram poucos dias para quem vivia. mas muitos para quem esperava. Bem o entendeu assim o Evangelista; porque, havendo de contar estes oito dias, veja-se o aparato de palavras com que o faz: Postquam consummati sunt : «depois que foram consumados»; parece que armava a dizer oito séculos, ou oito mil anos, segundo a grandeza vagarosa e a ponderação das palavras; e no cabo disse: dies octo – oito dias, que, como eram dias de esperar Redenção, ainda que não foram mais que oito, pareciam uma duração muito comprida, e que não acabavam de chegar, segundo tardavam: Postquam consummati sunt .

E se oito dias de esperar pela redenção, e ainda três dias, é tanto tempo; quanto seria, ou quanto pareceria, não três dias, nem oito dias, não três anos, nem oito anos, senão sessenta anos inteiros nos quais Portugal esteve esperando sua redenção, debaixo de um cativeiro tão duro e tão injusto! Não me paro a o ponderar; porque em dia tão de festa, não dizem bem memórias de tristezas, ainda que os males passados, parte vêm a ser de alegria. O que digo é que nos devemos alegrar com todo o coração e dar imortais graças a Deus, pois vemos tão felizmente logradas nossas esperanças. Nem nos pese de ter esperado tão longamente; porque se há-de recompensar a dilação da esperança com a perpetuidade da posse.

Perguntam os Teólogos como São Tomás na terceira parte, porque se dilatou tanto tempo o mistério da Encarnação, porque não desceu o Verbo Eterno a remir o Mundo, senão depois de tantos anos? Várias razões dão os Doutores: a de Santo Agostinho é muito própria do que queremos dizer: Diu fuit expectandus, semper tenendus : Quis o Verbo Eterno que esperassem os homens e suspirassem tantos séculos por sua vinda, porque era bem que fosse muito tempo esperado um bem que havia de ser sempre possuído. Haviam os homens de gozar para sempre a presença de Cristo, havia o Verbo de ser homem perpetuamente: porque – Quod semel assumpsit nunquam demisit – o que uma vez tomou, nunca mais o largou; seja pois este bem por muito tempo esperado, pois há-de ser por todo o tempo possuído, e mereça com as dilações da esperança a perpetuidade da posse: Diu fuit expectandus, semper tenendus .

Não necessita de acomodação o lugar; de firmeza sim, pelas dependências que tem no futuro; mas um espírito profético e português nos fiará a conjectura desta tão gostosa verdade. S. Frei Gil, religioso da sagrada ordem de S. Domingos, naquelas suas tão celebradas profecias, diz desta maneira: Lusitania sanguine orbata regio diu ingemiscet : «A Lusitânia o reino de Portugal, morrendo seu último rei sem filho herdeiro, gemerá e suspirará por muito tempo.» Sed propitius tibi Deus : «Mas lembrar-se-á Deus de vós, ó Pátria minha» – diz o Santo; Et insperate ab insperato redimeris : «e sereis remida não esperadamente por um rei não esperado». E depois de assim remido, depois de assim libertado Portugal, que lhe sucederá? – Africa debellabitur : Será vencida e conquistada África. Imperium ottomanum ruet : O império otomano cairá sujeito e rendido a seus pés. Domus Dei recuperabitur : A casa santa de Jerusalém será finalmente recuperada. E por coroa de tão gloriosas vitórias, Aetas aurea reviviscet : «Ressuscitará a idade dourada.» Pax ubique erit : «Haverá paz universal no Mundo.» Felices qui viderint : «Ditosos e bem-aventurados os que isto virem!»

Até aqui S. Frei Gil profetizando. De sorte que, assim como antes da Redenção houve suspirar e gemer, assim depois da Redenção haverá possuir e gozar; e assim como os suspiros e gemidos duraram por tantos anos, assim as felicidades e bens permanecerão sem termo e sem limite. O muito, quer Deus que não custe pouco, e era justo que a tanta glória precedesse tanta esperança, e que quem havia de gozar sempre, suspirasse muito: Lusitania diu ingemiscet. Diu fuit expectandus, semper tenendus .

E já que vai de esperanças, não deixemos passar sem ponderação aquelas palavras misteriosas da profecia: Insperate ab insperato redimeris . De propósito reparei nelas, para refutar com suas próprias armas alguma relíquia, que dizem que ainda há daquela seita ou desesperação dos que esperavam por el-rei D. Sebastião, de gloriosa e lamentável memória. Diz a profecia: Insperate ab insperato redimeris : «Que seria remido Portugal não esperadamente por um rei não esperado.» Segue-se logo, evidentemente, que não podia el-rei D. Sebastião ser o libertador de Portugal, porque o libertador prometido havia de ser um rei não esperado: Insperate ab insperato ; e el-rei D. Sebastião era tão esperado vulgarmente, como sabemos todos. Assim que os mesmos sequazes desta Opinião, com seu esperar, destruíram sua esperança; porque quanto o faziam mais esperado, tanto confirmavam mais que não era ele o prometido; podendo-se-lhe aplicar propriamente aquelas palavras que S. Paulo disse de Abraão: Contra spem in spem credidit ; que «creram em uma esperança contrária à sua mesma esperança»; porque pelo mesmo que esperavam, tinham obrigação de não esperar.

 

IV. Mas ainda que concedamos que os Portugueses não souberam esperar, não lhes neguemos que souberam amar, e com muita ventura; que talvez buscando a um rei morto, se vêm a encontrar com um vivo. Morto buscava a Madalena a Cristo na sepultura, e a perseverança e amor com que insistiu em o buscar morto, foi causa de que o Senhor lhe enxugasse as lágrimas e se lhe mostrasse vivo. Grande exemplar temos entre mãos! Assim como a Madalena, cega de amor, chorava às portas da sepultura de Cristo, assim Portugal, sempre amante de seus reis, insistia ao sepulcro de el-rei D. Sebastião, chorando e suspirando por ele; e assim como a Madalena no mesmo tempo tinha a Cristo presente e vivo, e o via com seus olhos e lhe falava e não o conhecia, porque estava encoberto e disfarçado, assim Portugal tinha presente e vivo a el-rei nosso senhor, e o via e lhe falava e não conhecia. Porquê? – Não só porque estava, senão porque ele era o encoberto. Ser o encoberto e estar presente, bem mostrou Cristo neste passo que não era impossível. E quando se descobriu Cristo? Quando se manifestou este Senhor encoberto? Até esta circunstância não faltou no texto. Disse a Madalena a Cristo: Tulerunt Dominum meum : «Levaram-me o meu Senhor»; e o Senhor não lhe deferiu. Nescio ubi posuerunt eum : queixou-se que .não sabia onde lho puseram; e dissimulou Cristo da mesma maneira. Si tu sustulisti eum : «Se vós, Senhor, o levastes, dicito mihi , dizei-mo»; e ainda aqui se deixou o Senhor estar encoberto sem se manifestar. Finalmente, alentando-se a Madalena mais do que sua fraqueza permitia, e tirando forças do mesmo amor, acrescentou: – Et ego eum tollam : «E eu o levantarei.» E tanto que disse – eu o levantarei: Ego eum tollam , então se descobriu o Senhor, mostrando que ele era por quem chorava; e a Madalena o reconheceu e se lançou a seus pés.

Nem mais nem menos Portugal, depois da morte de seu último rei. Buscava-o por esse Mundo, perguntava por ele, não sabia onde estava, chorava, suspirava, gemia, e o rei vivo e verdadeiro deixava-se estar encoberto e não se manifestava, porque não era ainda chegada a ocasião; porém tanto que o Reino, animoso sobre suas forças, se deliberou a dizer resolutamente: Ego eum tollam : eu o levantarei e sustentarei com meus braços, então se descobriu o encoberto Senhor, porque então era chegado o tempo, dizendo-nos aos Portugueses o que diz S. Gregório que disse Cristo à Madalena manifestando-se: Recognosce eum, a quo recognosceris : «Reconhecei a quem vos reconhece»; reconhecei por rei, a quem vos reconhece por vassalo. Então sim, e não antes; então sim, e não depois; porque aquele e não outro era o tempo oportuno e determinado de dar princípio à nossa redenção.

Recebeu Cristo o golpe da circuncisão e deu princípio à Redenção do Mundo, não antes nem depois, senão pontualmente aos oito dias: Dies octo, ut circumcideretur puer . Pois porque antes, ou porque não depois? Não se circuncidara ao dia sétimo? Não se circuncidara ao dia nono? Porque não antes nem depois, senão ao oitavo? – A razão foi porque as cousas que faz Deus e as que se hão-de fazer bem feitas, não se fazem antes, nem depois, senão a seu tempo. O tempo assinalado nas Escrituras para a circuncisão era o dia oitavo, como se lê no Génesis e no Levítico : Die octavo circumcideretur infantulus . E por isso se circuncidou Cristo, sem se antecipar, nem dilatar aos oito dias: Postquam consummati sunt dies octo ; porque como o Senhor remiu o género humano por obediência aos decretos divinos, o tempo que estava assinalado na lei para a circuncisão era o que estava predestinado para dar princípio à redenção do Mundo. Da mesma maneira se deu princípio à redenção e restauração de Portugal em tais dias e em tal ano, no celebradíssimo de 40, porque esse era o tempo oportuno e decretado por Deus; e não antes nem depois, como os homens quiseram. Quiseram os homens que fosse antes, quando sucedeu o levantamento de Évora; quiseram os homens que fosse depois, quando assentaram que o dia da aclamação fosse o 1º de Janeiro, hoje faz um ano; mas a Providência Divina ordenou se antecipasse, para que pontualmente se desse princípio à restauração de Portugal a seu tempo: Postquam consummati sunt dies octo . [...]

 

V. [...] Se Portugal se levantara enquanto Castela estava vitoriosa, ou, quando menos, enquanto estava pacífica, segundo o miserável estado em que nos tinham posto, era a empresa mui arriscada, eram os dias críticos e perigosos; mas como a Providência Divina cuidava tão particularmente de nosso bem, por isso ordenou que se dilatasse nossa restauração tanto tempo, e que se esperasse a ocasião oportuna do ano de quarenta, em que Castela estava tão embaraçada com inimigos, tão apertada com guerras de dentro e de fora; para que, na diversão de suas impossibilidades, se lograsse mais segura a nossa resolução. Dilatou-se o remédio, mas segurou-se o perigo. Quando os Filisteus se quiseram levantar contra Sansão, aguardaram a que Dalila lhe tivesse presas e atadas as mãos, e então deram sobre ele. Assim o fizeram os Portugueses bem advertidos. Aguardaram a que Catalunha atasse as mãos ao Sansão que os oprimia, e como o tiveram assim embaraçado e preso, então se levantaram contra ele tão oportuna como venturosamente. [...] O remédio era fazerem como nós fizemos e como nós fazemos e como nós havemos de fazer: enquanto Sansão está com as mãos atadas, cortar-lhe os cabelos no mesmo tempo, e acabou-se Sansão. Assim o podiam vencer os Filisteus com muita facilidade, que doutra maneira não seria tão fácil. Porque se lhe não cortassem os cabelos, teria forças para desatar as mãos, e se desatassem as mãos, seria necessária muita força para lhe cortar os cabelos. Tanto como isto importa executar os remédios a tempo, como nós, por mercê de Deus, o temos feito até agora tão felizmente, conseguindo a maior empresa e evitando o menor perigo; porque soubemos esperar pelos dias oportunos, como mandava a Lei esperar pelos da circuncisão: Dies octo, ut circumcideretur puer.

Traduït per Gabriel Sampol
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